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Qualidade em Recursos Humanos: Uma Visão Diferenciada

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Cidade(s): Uberlândia

Qualidade em Recursos Humanos: Uma Visão Diferenciada

Qualidade em Recursos Humanos: Uma Visão DiferenciadaLembro-me de quando era criança e pensava no futuro. Pois bem, chegamos ao futuro e realmente boa parte do que eu nem pensava que pudesse um dia existir se tornou realidade. Um bom exemplo é este veículo de comunicação: a Internet. Há pouco mais de 10 anos, não imaginávamos um veículo de tamanha potência e de tamanho alcance, que tornaria o mundo pequeno o suficiente para caber numa simples tela de computador, ao alcance de praticamente uma única mão. Tecnologicamente, presenciamos em poucos anos uma estupenda evolução das sociedades humanas. O século XX realmente poderá ser reconhecido num futuro próximo como o século da grande Revolução Tecnológica da História.

Mas a tecnologia por si só nada representa. O paradigma tecnológico, cientificista e mecanicista está pouco a pouco evoluindo para um paradigma mais globalizado, mais holístico (em referência a um todo mais complexo). Vivemos hoje num mundo globalmente interligado, no qual os fenômenos biológicos, tecnológicos, psicológicos, sociais e ambientais são todos interdependentes. Para descrever esse mundo apropriadamente, necessitamos de uma perspectiva ecológica, que a visão de mundo mecanicista não nos oferece.

Os avanços tecnológicos no início do século prometiam facilitar a vida de todos, mas as inovações que prometiam uma vida mais facilitada, tranqüila e simples escondiam um risco que hoje cobra seu preço. Os automóveis pouparam o trabalho de caminhar, mas criaram congestionamentos irritantes. O computador que "trava" no meio de uma operação faz o homem civilizado enfurecer-se como um primitivo. A vida tornou-se acelerada demais para o ritmo do corpo humano. A informática, o fax, o celular, o pager, os e-mails, deixam a pessoa ligada no trabalho 24 horas por dia, aumentando demasiadamente a carga de stress e tensão decorrentes daí, principalmente para o empresário ou executivo moderno. Como então dissociar as perspectivas presentes nestes pequenos exemplos !? Sim, pois aqui estamos falando de uma evolução tecnológica que facilitou a nossa vida social, relacional e profissional, e que acarreta uma série de mudanças comportamentais que nem sempre todos estamos suficientemente instrumentalizados psicologicamente e emocionalmente para operacionalizá-las. Falemos então das relações existentes entre o trabalho e a saúde, principalmente a saúde mental e como a atenção psicológica e psicoterapêutica a este funcionário ou empregado pode contribuir substancialmente para a melhoria destas.

O que é o Trabalho !? Em sua raiz latina a palavra trabalho não mostra uma consideração muito otimista; Tripalium quer dizer castigo, e foi este o nome dado a um instrumento aplicado aos escravos para se esforçarem em seus deveres. Travail, em francês, era a palavra usada para designar um instrumento para conter animais durante uma cirurgia, e Labore, da raiz inglesa labour, é uma referência a uma situação penosa e de fadiga. Todas estas desanimadoras concepções de trabalho, povoam o imaginário de cada um nós, direta ou indiretamente, não sendo à toa que ao ser referido, ele é tido como uma atividade dispensável, penosa e necessária apenas por nos dar o sustento material. Cremos que o Trabalho que nos interessa seja mais do que meramente estas definições contém.

Podemos buscar um entendimento mais amplo para o Trabalho. Ele pode ser encarado e entendido como toda atividade humana, penosa ou prazerosa, que se define no emprego da força, seja ela física ou mental, com o intuito de legar à sociedade algo significativo do ponto de vista desta. Sendo assim, o Trabalho só pode ser tido como uma experiência humana fundamental, fruto edificador das sociedades humanas, servindo como fator equilibrante entre o pensar e o agir, atuando como movimento de vida, como força transformadora do ser e das relações por ele traçadas. Mas como transformar o nosso trabalho em algo verdadeiramente saudável !? Esta é uma discussão de suma importância, principalmente se pretendemos primar pela Qualidade em nossas empresas.

No mercado de trabalho atual, altamente competitivo e qualificado, a saúde mental dos funcionários da empresa é de fundamental importância para se atingir uma qualidade diferenciada dos serviços, as metas programadas e o sucesso da empresa. É impossível falarmos de qualidade ao cliente, seja no fornecimento de produtos ou de serviços, se não tratarmos primeiramente da qualidade interna, que se refere à qualidade do trabalho na empresa e na Saúde, Física e Mental do nosso trabalhador, qualquer que seja a sua posição na empresa.

Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, "a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consiste, somente, em uma ausência de doença ou enfermidade". Esta definição de saúde ressalta o valor da saúde, independente da doença, mas deixa a desejar, pois não encara a doença como um processo. Podemos então, entender saúde e doença não como coisas estanques, mas como um processo saúde/doença, que tem um nexo biopsicossocial . Este nexo se dá justamente porque a manifestação da doença se dá no corpo biológico, mas encontramos sua raiz no psicológico, que sempre é atravessado pelo meio social, respondendo a ele. O que notamos neste nexo é que o processo saúde/doença é uma resposta eliciada pelo meio social, o que inclui o ambiente de trabalho e a forma como este se estrutura, o que acaba por levar o indivíduo a se afastar deste, justamente aonde o processo fora desencadeado. Deste modo é de suma importância na análise do processo levarmos em conta sua historicidade, é isto que vai dar significado à doença, é o contexto no qual ela fora gerada que deve ser abordado.

Para se ter uma idéia do quão dramático é este quadro, o stress foi apontado em 1998 pela mesma OMS, como o "mal do século", uma epidemia global que atinge nove em cada dez habitantes do planeta.

Na indústria farmacêutica brasileira, os dois remédios campeões de faturamento são calmantes cuja função original seria tratar vítimas de ansiedade e de síndrome do pânico.

Um elemento importante causador de danos à saúde do trabalhador e que temos que analisar, é a noção de carga de trabalho, que seria a resultante da conjunção de elementos do processo de trabalho que interatuam dinamicamente entre si e com o corpo do trabalhador. Sendo assim, podemos perceber que os processos de trabalho constitutem-se em grandes fontes geradoras de tensão e fadiga. Segundo Friedmann, essas sensações estão relacionadas com a fragmentação e a repetitividade das tarefas, somando-se o fato do funcionário muitas vezes não estabelecer nenhum vínculo com a sua produção. Há uma verdadeira automatização do trabalho humano, impedindo dessa forma, o interesse, a criatividade ou qualquer outro envolvimento emocional prazeroso com as atividades executadas. Esse desinteresse provoca um sofrimento manifestado através da fadiga, depressão, distúrbios neuróticos, entre outros problemas que irão afetar também seu ambiente social. O espaço de sofrimento psíquico pode ser visto como uma zona difusa entre a saúde e a doença, "espaço que se caracteriza por uma luta contra a doença mental". Ele aponta o sentimento de indignidade, o sentimento de inutilidade e o de desqualificação como significativos de uma insatisfação com o conteúdo das tarefas.

Fica claro que isto não é uma regra. Como citado no início, esta situação ocorre mas também ocorre a contrária: indivíduos que conseguem estabelecer uma relação saudável e por vezes prazerosa com o trabalho. O importante é prestarmos atenção a estes casos em que o processo de adoecimento é gerado: é preciso proporcionar condições de trabalho mais favoráveis para estes trabalhadores e atenção psicoterapêutica a eles, pois só assim estaremos primando pela qualidade do pessoal.

Uma empresa se faz através de seu pessoal e investir na saúde mental do trabalhador pode realmente fazer a diferença. A psicoterapia aplicada ao trabalho pode prevenir o stress e todos os seus desdobramentos, reduzindo assim o custo futuro da empresa com este ou aquele funcionário que venham a adoecer. Além disso, ocorre também o que chamamos de efeito em cascata, no qual através do aumento da motivação do funcionário e da melhoria das condições do ambiente de trabalho a empresa ganha um aumento da produtividade, o que naturalmente aumenta a arrecadação e assim por diante. É ver para crer ...

Texto de autoria de Mauro Paiva

* Fonte : Psi on-line por Thays Babo /Site BrasilMedicina


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