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Está no Brasil um dos vulcões mais antigos do mundo

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Cidade(s): Uberlândia

Está no Brasil um dos vulcões mais antigos do mundo

Os limites do Oceano Pacífico guardam os maiores grupos de vulcões ativos existentes hoje. Eles circundam toda a região desde o norte, com as Ilhas Kurilas, Japão, Ilhas Marianas, do lado oriental, até latitudes mais baixas, na Austrália, com as Ilhas de Salomão, Samoa e Tonga, passando, no lado ocidental, pelas Ilhas Galápagos, na altura da América Central até a Cascade Range, nos EUA, e Ilhas Alvetas, perto do Alasca.
   Já no interior dos continentes a presença de vulcões é bem inferior aos situados em áreas litorâneas e um dos acidentes desse pequeno grupo está no Brasil. A descoberta é de um grupo de pesquisadores do Instituto de Geociências (IGc) da Universidade de São Paulo (USP), que localizou no Pará um dos maiores e mais antigos vulcões conhecidos atualmente.
   Sua idade é estimada em quase 2 bilhões de anos, perto da metade da idade da Terra, calculada em 4,5 bilhões de anos, diz o professor Caetano Juliani, coordenador do IGc, destacando que essa é também uma característica que o torna tão intrigante. A descoberta posiona o Brasil na rota mundial de interesse dos vulcanologistas.“É muito raro encontrar vulcão tão antigo ainda preservado do intemperismo e da erosão”, comemora ele.
   Normalmente, formações antigas desaparecem devido ao desgaste proveniente do conjunto de processos de decomposição das rochas por interação com a atmosfera e hidrosfera, ou ainda geológicos resultantes da constante movimentação das placas tectônicas ao longo do tempo. A título de comparação, a maioria dos vulcões desse tipo ainda preservados se formaram há menos de 250 milhões de anos.
   Segundo o geólogo Rafael Hernandes Corrêa Silva, que tem uma dissertação de mestrado sobre o estudo, a formação do vulcão se iniciou a partir de dezenas de pequenas erupções. O ponto alto das atividades foi uma erupção gigantesca, catastrófica e altamente explosiva que, além de expelir uma quantidade extraordinária de lava e cinzas, provocou o desabamento de uma área circular de 22 km, chamada de caldeira. O gigante descoberto na Amazônia pertence ao grupo dos vulcões constituidos por magma ricos em sílica (ácidos), que geram os complexos de maiores dimensões, ao contrário dos formados por magmas pobres em sílica (básicos).
   Juliani diz que a preservação do acidente e de alguns minerais encontrados nas rochas que compõem a cratera do vulcão, gerados pela reação química dos fluidos e gases liberados pelo magma (rocha fundida que constitui o manto) e da água subterrânea com as paredes do vulcão, é única no mundo. O principal é a alunita, um sulfato rico em potássio e sódio. O que chama a atenção, segundo o pesquisador, é o fato de o material se formar em temperaturas relativamente baixas (inferiores a 350°C) e quase na superfície, a cerca de 1 km de profundidade no máximo. “Não sabemos porque a estrutura permaneceu estável. Essa é uma questão em aberto, que merece estudos detalhados”, aponta.
   O vulcão está localizado na província aurífera do Tapajós, no Pará, entre os rios Tapajós e Jamanxim. Não existe estrada de acesso ao local, que reúne ainda outros diversos vulcões, formados quando o local afundou (resultando na caldeira), em mapeamento pela equipe de Juliani e pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), entre eles os professores Roberto Dall´Agnol e Cláudio Lamarão. O acesso é feito por barco, pelo rio Tapajós, e mais dois dias de caminhada, ou por avião de pequeno porte que aterrisa no meio da floresta.
   Os primeiros estudos na região começaram em 1998, e versavam sobre os minérios da região. Os pesquisadores chegaram à existência do vulcão, que se eleva de 250m a 300m acima da superfície, por meio de análises químicas dos compostos da região, imagens de radar, de satélite e trabalhos de campo, que permitiram delinear a extensão e o formato da caldeira. Sua intensidade à época foi de tal magnitude que transposta para os dias de hoje equivaleria a uma hecatombe. “Estes eventos são altamente destrutivos e, se houvesse qualquer coisa ao redor, tudo seria queimado e devastado”, aponta Juliani. De acordo com ele, o derrame de lava e cinza alcançou centenas de metros de espessura, e podem ser superiores a 600 km³.
   As partículas vulcânicas cobriram a atmosfera por dezenas de quilômetros, reduzindo a incidência de luz solar. “Depois do advento da vida vegetal e animal, este fenômeno é ainda mais catastrófico, por causa da fotossíntese, da cadeia alimentar e do inverno decorrente - semelhante ao que ocorreria no caso de uma guerra nuclear em larga escala”, explica Juliani.
   Diz o pesquisador que o vulcão surgiu no período Paleoprotezóico (2500 a 545 milhões de anos), o segundo na escala geológica, posterior apenas ao período Arqueano. “Não havia continentes como nós os conhecemos hoje”, lembra Juliani. As únicas formas de vida existentes eram bactérias, cuja origem é de 2,5 bilhões de anos, e seres unicelulares, de 2 bilhões de anos descobertos por estudos realizados na Austrália.
   Conta o professor que o vulcão se formou pelo o choque de duas placas tectônicas (macro regiões de rochas que flutuam sobre o magma), no qual uma foi empurrada para baixo da outra. “Nessa época, ainda não existiam grandes massas continentais, só alguns pequenos blocos colidindo para formar o que mais tarde seria o primeiro supercontinente da Terra, denominado pelos geólogos de Rodínia em alusão ao Gigante de Rodes”,
   A atividade, além de deformar as extremidades dos conjuntos, veio acompanhada de abalos sísmicos. A partir do momento em que são empurradas para o interior da Terra, as rochas se tornam mais quentes e menos densas. Fundido, o material submerge violentamente pelas fraturas causando explosões de lava na superfície. O fenômeno foi semelhante ao que ocorre na região dos Andes. A cordilheira foi formada pelo choque entre a placa do Oceano Pacífico, que ocupa toda a região pela qual se estende o mar, e a placa do Atlântico Sul. No caso de colisões dessa natureza, uma das porções pode submergir até 600 km sob a outra durante milhares de anos à velocidade de poucos centímetros anuais.
   A descoberta do vulcão abre espaço para a exploração de terrenos antigos no mundo, como outros encontrados na Austrália, Canadá e África, que podem conter metais de interesse econômico só registrados em sistemas mais jovens que o da Amazônia. “A área tem mineralização de ouro, mas nada que valesse à pena foi encontrado nesse momento, embora haja potencialidade econômica para que isso ocorra”, revela o professor. A importância da região é mais científica devido à raridade de duas variedades de depósitos encontrados no local, que até então nunca haviam sido reconhecidos em terrenos tão antigos.
   Analisa Juliani que é possível que em um dos dois modelos existam minérios em volume e economicamente relevante, o que só poderá ser confirmado com pesquisas por empresas de mineração. “A importância econômica é devida ao fato de que estes tipos de mineralizações podem gerar depósitos de ouro e cobre de grande teor e baixo volume e podem ter, associados, outros depósitos de ouro e cobre de grande tonelagem e baixo teor. Isto significa que o bem mineral ocorre em pouca quantidade de rocha hospedeira, mas o volume dessa rocha que pode ser lavrado é muito maior, resultando num volume final de minério explorado muito grande”, explica.
   Entre os leigos, a descoberta do vulcão levantou questões sobre possíveis erupções. Juliani garante que a estrutura está completamente inativa, até porque o ciclo de vida dessas formações é de 3 a 4 milhões de anos, número baixo perto da idade de 1,85 bilhão de anos. O sistema foi extinto quando o material líquido que preenchia a câmara magmática esfriou, um processo de milhares de anos. As pesquisas contaram com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) e do United Geological Survey (USGS).

fonte:Agência Estado

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